8 de mai de 2010

A criança sob terror

A ignorância do adulto e seu preço

1. Toda criança é sempre inocente.
2. Toda criança tem necessidades inegáveis, nomeadamente de segurança, afeição, proteção, contato, sinceridade, calor e ternura.
3. Essas necessidades são raramente satisfeitas, ao contrário, são exploradas por adultos aos seus próprios fins (traumatismo de abuso perpetrado sobre a criança).
4. O abuso que sofre a criança tem consequências para toda a vida.
5. A sociedade está ao lado do adulto e acusa a criança do que lhe foi feito.
6. A realidade do sacrifício da criança sempre é negada.
7. Continua-se por conseguinte a ignorar as consequências deste sacrifício.
8. A criança, abandonada na solidão pela sociedade, não tem outra solução senão recalcar o traumatismo e idealizar quem lho infligiu.
9. O recalcamento gera neuroses, psicoses, perturbações psicossomáticas e crimes.
10. Na neurose, as verdadeiras necessidades são recalcadas e negadas e o sujeito vive no lugar delas, sentimentos de culpa.
11. Na psicose, o abuso é transformado em representação delirante.
12. Na perturbação psicossomática, a dor do mau trato é vivida, mas as causas verdadeiras deste sofrimento permanecem ocultas.
13. No crime, a confusão, a sedução e os maus tratos sofridos encontram sempre novas abreações.
14. A terapia pode ter êxito se não negar a verdade da infância do doente.
15. A doutrina psicanalítica “da sexualidade infantil” inscreve-se em apoio cego à sociedade e legitima o abuso sexual perpetrado sobre a criança. Acusa a criança e poupa o adulto.
16. As fantasias estão ao serviço da sobrevivência, ajudam a exprimir a realidade insuportável da infância e, ao mesmo tempo, a escondê-la e fazê-la parecer mais inofensiva. Um acontecimento ou um traumatismo fantasiado supostamente “inventado” abrange sempre um traumatismo real.
17. Na literatura, assim como na arte, nos contos e nos sonhos exprimem-se, de forma simbólica, experiências recalcadas da primeira infância.
18. Dada nossa ignorância crônica da situação real da criança, esses testemunhos simbólicos dos tormentos são, não apenas tolerados, mas até mesmo muito apreciados na nossa civilização. Se compreendessem o plano oculto desses atos, a sociedade os rejeitaria.
19. As consequências de um crime cometido não são apagadas pelo fato de tanto o criminoso quanto a vítima estarem cegos e perturbados.
20. Pode-se evitar novos crimes, se as vítimas começarem a ver claramente; a compulsão à repetição cessa ou será enfraquecida.
21. Na medida em que permitem descobrir irrefutável e claramente a fonte dos conhecimentos ocultos das vivências na infância, os relatos das vítimas podem ajudar a sociedade, em geral, e a ciência, em especial, a aumentar o seu grau de consciência.
22. Muitas outras mulheres e homens serão incentivados por esses relatos a explorar a história da própria infância, perceberão sua importância e a relatarão por sua vez. Círculos cada vez mais vastos da população serão assim informados do que a maior parte dos seres teve que suportar no início da sua vida, sem saber, eles mesmos, em seguida, sem que ninguém soubesse - simplesmente porque não havia relatos, de pessoas implicadas, sem idealizações. Agora, temos testemunhos, e aparecerão cada vez mais relatos. As vítimas de ontem e de hoje são os informantes do amanhã.

Anexo Página 371
Alice Miller 1986
(Traduzido do alemão por Jeanne Etoré)
(Traduzido do francês por Mirian Giannella, 2010)

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