14 de mai de 2010

Os sintomas do estresse pós-traumático

Repercussões Psiquiátricas e Psicosociais a longo prazo
O estado de estresse pós-traumático
tradução Mirian Giannella

O estado de estresse pós-traumático representa a repercussão psiquiátrica mais característica e mais grave a longo prazo.
A repetição é o sinal patognômico do traumatismo psíquico (11). Toma a forma de sonhos, de pesadelos, até necessidade compulsiva de evocação dos acontecimentos traumáticos, passando por flash backs e lembranças dolorosas que reproduzem o acontecimento traumático.
Definição do PTSD no DSM IV (o DSM-IV (Diagnostic and Statistical Manual - Revisão 4) é um instrumento de classificação que representa o resultado atual dos esforços prosseguidos há cerca de trinta de anos nos Estados Unidos para definir cada vez mais precisamente as perturbações mentais. Foi publicado pela Associação americana de psiquiatria em 1994. Trata-se da 4ª versão do DSM.)
A. O sujeito foi exposto a um acontecimento traumático no qual os dois elementos seguintes estavam presentes:
1. O sujeito viveu, foi testemunha ou foi confrontado a um acontecimento ou a elementos nos quais os indivíduos poderiam ter morrido ou foram gravemente feridos ou ameaçados de morte ou de graves lesões ou durante os quais a sua integridade física ou a de outro foram ameaçadas.
2. A reação do sujeito ao acontecimento traduziu-se por um medo intenso, um sentimento de impotência ou de horror.
B. Sintomas de intrusão
O acontecimento traumático é constantemente revivido de uma (pelo menos) das maneiras seguintes:
1. Lembranças repetitivas e invasoras do acontecimento provocando um sentimento de aflição e compreendendo imagens, pensamentos ou percepções (jogo repetitivo que exprime temas ou aspetos traumáticos na criança)
2. Sonhos repetitivos do acontecimento que provocam um sentimento de aflição (sonhos aterrorizantes na criança)
3. Impressões ou atuações repentinas como se o acontecimento traumático se reproduzisse (ilusões, flash-back, alucinações)
4. Sentimento intenso de aflição psíquica quando da exposição à índices externos ou internos que evocam ou assemelham-se à aspetos do acontecimento traumático causa;
5. Reatividade fisiológica quando da exposição à índices internos ou externos que podem evocar um aspeto do acontecimento traumático em causa.

C. Sintomas de evitamento
Evitamento persistente dos estímulos associados ao traumatismo e émoussement da reatividade geral, com pelo menos três das manifestações seguintes:
1. Esforços para evitar os pensamentos, sentimentos ou conversações associados ao traumatismo;
2. Esforços para evitar as atividades, lugares ou pessoas que despertam lembranças do traumatismo;
3. Incapacidade a recordar-se de um aspeto importante do traumatismo;
4. Reação nítida de interesse por atividades importantes ou redução da participação nestas atividades;
5. Sentimento de distanciamento do outro ou de tornar-se estranho em relação aos outros;
6. Restrição dos afetos (por exemplo: incapacidade de provar sentimentos ternos)
7. Sentimento de futuro “bloqueado” (por exemplo: não poder fazer carreira, casar-se, ter crianças, ter um curso normal de vida)

D. Sintomas Neurovegetativos
Pelo menos dois sintomas persistentes traduzem uma ativação neurovegetativa:
1. Dificuldades de sono ou de sono interrompido
2. Irritabilidade ou acessos de cólera
3. Dificuldades de concentração
4. Hipervigilância
5. Reação de sobressalto exagerado

E. Os sintomas dos critérios B, C e D duram mais de um mês.
F. A perturbação provoca um sofrimento significativo ou uma deterioração do funcionamento social, profissional ou outros domínios importantes.

fonte: AIVI
http://aivi.org/en/vous-informer/consequences-de-linceste

12 de mai de 2010

Às custas das vítimas

O alto preço pago pelas vítimas

As vítimas de incesto sofrem de um grande número de patologias em proporções maiores do que a população francesa:
Depressão: 98% das vítimas indicam sentir atualmente (72%) ou ter sentido no passado (26%) o sentimento regular de estar muito deprimida, enquanto a proporção de Franceses que vive a mesma situação é claramente menor (56%, dos quais 19% a vivem atualmente). As vítimas estão mais sujeitas a comportamentos de risco ou à drogadição como fumar mais de 10 cigarros por dia em média (55% contra 44% em média dos Franceses), de beber mais de 3 copos de álcool por dia (30% contra 17%) ou consumir droga toda semana (27% contra 9%). A grande maioria delas sofre de perturbações compulsivas alimentares como a anorexia ou bulimia (76% contra 9% de Franceses como um todo).
Tentativas de suicídio: 86% das vítimas indicam ter ou ter tido recorrentes ideias ou impulsos suicidas, situação que encontram apenas 14% dos Franceses. Mais grave, a maioria das vítimas já tem passagem ao ato, dado que 53% já tentou o suicídio, das quais, um terço, várias vezes.
O fato de ter sofrido incesto tem múltiplas consequências na vida diária das vítimas. O traumatismo é quase permanente. A lembrança da agressão incomoda frequentemente (94% conhecem esta situação, dos quais 74% vivem ainda atualmente) e têm regularmente pesadelos muito violentos ou perturbadores (86% dos quais 49% atualmente).
Isso tem impacto sobre a vida sexual (77% estão ou já estiveram na impossibilidade de ter uma relação sexual ainda que desejassem) e profissional (68% estão ou estiveram na impossibilidade de concentrar-se ou exercer uma atividade profissional).

A divulgação dos fatos: um processo longo e doloroso
A divulgação intervém em média 16 anos após os fatos. Para cerca de um quarto das vítimas (22%), mais de 25 anos se escoaram antes da primeira evocação aos fatos, um terço, o fez fora do círculo familiar: a primeira vez que falaram, só 28% das vítimas abordaram o assunto com um membro da família, amigos, cônjuges ou especialistas privilegiados. Em contrapartida, 77% das pessoas testemunharam do que viveram à família. Testemunho que não é bem acolhido por uma escuta atenciosa e generosa: quando revelaram pela primeira vez, a maioria das vítimas (55%) indica que seu interlocutor nunca mais falou com elas. Mais grave, uma vítima em cada cinco indica que este último pediu-lhe ou aconselhou-a a guardar silêncio ou pior, colocou em dúvida o seu testemunho acusando-a de mentir.
A confrontação com o agressor é rara e difícil: a maioria das vítimas (56%) nunca falou do que se passou com seu agressor e, quando o fizeram, este último, na maioria dos casos (54%), negou os fatos.
Os fatos traduzem-se muito raramente pela saída judicial. Assim, só 30% das vítimas denunciaram e, quando o fizeram, majoritariamente não houve processo. As pessoas que não denunciaram afirmaram ter agido assim porque os fatos estavam prescritos, enquanto 35% explicam que tiveram medo de serem rejeitadas pela família.
PESQUISA REALIZADA PELA AIVI – Associação de Ajuda às Vítimas de Violência
http://aivi.org
Tradução Mirian Giannella para o Observatório da Clínica
http://apoioasvitimas.blogspot.com

8 de mai de 2010

A criança sob terror

A ignorância do adulto e seu preço

1. Toda criança é sempre inocente.
2. Toda criança tem necessidades inegáveis, nomeadamente de segurança, afeição, proteção, contato, sinceridade, calor e ternura.
3. Essas necessidades são raramente satisfeitas, ao contrário, são exploradas por adultos aos seus próprios fins (traumatismo de abuso perpetrado sobre a criança).
4. O abuso que sofre a criança tem consequências para toda a vida.
5. A sociedade está ao lado do adulto e acusa a criança do que lhe foi feito.
6. A realidade do sacrifício da criança sempre é negada.
7. Continua-se por conseguinte a ignorar as consequências deste sacrifício.
8. A criança, abandonada na solidão pela sociedade, não tem outra solução senão recalcar o traumatismo e idealizar quem lho infligiu.
9. O recalcamento gera neuroses, psicoses, perturbações psicossomáticas e crimes.
10. Na neurose, as verdadeiras necessidades são recalcadas e negadas e o sujeito vive no lugar delas, sentimentos de culpa.
11. Na psicose, o abuso é transformado em representação delirante.
12. Na perturbação psicossomática, a dor do mau trato é vivida, mas as causas verdadeiras deste sofrimento permanecem ocultas.
13. No crime, a confusão, a sedução e os maus tratos sofridos encontram sempre novas abreações.
14. A terapia pode ter êxito se não negar a verdade da infância do doente.
15. A doutrina psicanalítica “da sexualidade infantil” inscreve-se em apoio cego à sociedade e legitima o abuso sexual perpetrado sobre a criança. Acusa a criança e poupa o adulto.
16. As fantasias estão ao serviço da sobrevivência, ajudam a exprimir a realidade insuportável da infância e, ao mesmo tempo, a escondê-la e fazê-la parecer mais inofensiva. Um acontecimento ou um traumatismo fantasiado supostamente “inventado” abrange sempre um traumatismo real.
17. Na literatura, assim como na arte, nos contos e nos sonhos exprimem-se, de forma simbólica, experiências recalcadas da primeira infância.
18. Dada nossa ignorância crônica da situação real da criança, esses testemunhos simbólicos dos tormentos são, não apenas tolerados, mas até mesmo muito apreciados na nossa civilização. Se compreendessem o plano oculto desses atos, a sociedade os rejeitaria.
19. As consequências de um crime cometido não são apagadas pelo fato de tanto o criminoso quanto a vítima estarem cegos e perturbados.
20. Pode-se evitar novos crimes, se as vítimas começarem a ver claramente; a compulsão à repetição cessa ou será enfraquecida.
21. Na medida em que permitem descobrir irrefutável e claramente a fonte dos conhecimentos ocultos das vivências na infância, os relatos das vítimas podem ajudar a sociedade, em geral, e a ciência, em especial, a aumentar o seu grau de consciência.
22. Muitas outras mulheres e homens serão incentivados por esses relatos a explorar a história da própria infância, perceberão sua importância e a relatarão por sua vez. Círculos cada vez mais vastos da população serão assim informados do que a maior parte dos seres teve que suportar no início da sua vida, sem saber, eles mesmos, em seguida, sem que ninguém soubesse - simplesmente porque não havia relatos, de pessoas implicadas, sem idealizações. Agora, temos testemunhos, e aparecerão cada vez mais relatos. As vítimas de ontem e de hoje são os informantes do amanhã.

Anexo Página 371
Alice Miller 1986
(Traduzido do alemão por Jeanne Etoré)
(Traduzido do francês por Mirian Giannella, 2010)

3 de mai de 2010

Dizer a verdade às crianças

de Alice Miller
Tradução em francês de Pierre Vandevoorde (janeiro 2007)
Tradução em português de Mirian Giannella (maio 2010)

Tento às vezes imaginar como alguém, tendo crescido num planeta onde não vem à ideia de ninguém de bater numa criança, como poderia sentir as coisas. Um dia talvez, graças aos progressos da investigação espacial, poderemos viajar de planeta em planeta, e saber como seres com costumes completamente diferentes abordarão a nossa terra. O que passará na cabeça e coração de um deles quando vir humanos adultos e vigorosos lançar-se sobre pequenas crianças sem defesa e golpea-las num impulso de fúria?
É ainda corrente hoje crer que as crianças não têm sentimentos, e estar persuadido que o que se pode fazer-lhes sofrer não tem consequências, ou a rigor de menor importância que nos adultos, precisamente porque são “ainda crianças”. É assim que até recentemente, cirurgias em crianças sem anestesia ainda eram autorizadas. Mais ainda, circuncisão e excisão são consideradas em muitos países como costumes tradicionais legítimos, da mesma maneira que os ritos de iniciação sádicos.
Golpear adultos é tortura, golpear crianças é educação. Isto não seria suficiente para evidenciar claramente uma anomalia que perturba o cérebro da maior parte das pessoas, “uma lesão”, um buraco enorme no lugar onde deveria se encontrar o empatia, em especial PARA COM as CRIANÇAS? Esta observação é suficiente para provar a precisão da tese na qual o cérebro das crianças espancadas guarda sequelas, porque quase todos os adultos são insensíveis à violência que sofrem as crianças!
Já que as torturas que sofrem as crianças são rejeitadas e negadas por todo mundo, pode-se supor que este mecanismo (de proteção) é constitutivo da natureza humana, que poupa sofrimentos ao ser humano e teria, consequentemente, um papel positivo. Mas há pelo menos dois fatos que contradizem esta afirmação. Primeiro, é precisamente quando os maus tratos são negados que são transmitidos à geração seguinte, impedindo assim a interrupção da cadeia de violência, e em segundo lugar, é a recordação do que foi sofrido que permite o desaparecimento dos sintomas de doença.
Já foi estabelecido que colocar em palavras as agressões sofridas pela criança na presença de um testemunho que se compadece conduz ao desaparecimento dos sintomas físicos e psíquicos (como a depressão); este fato nos obriga a procurar outra forma de terapêutica, pois não é se fazendo de aliado da recusa que se encontra a via da liberação, mas confrontando-se à sua própria verdade com tudo que possa ter de doloroso.
No meu entender, as mesmas conclusões aplicam-se à terapia das crianças. Como a maior parte das pessoas, eu também, durante muito tempo estava convencida de que as crianças têm absolutamente necessidade de ilusão e de recalcamento para poder sobreviver, porque seria demasiado doloroso para elas se encontrar face à verdade. Mas, hoje, estou convencida de que o que vale para os adultos, vale para elas, também: aquele que conhece a verdade da sua história está protegido de doenças e perturbações de todas as ordens. Mas para isto, a ajuda de seus pais lhe é indispensável.
Hoje, muitas crianças apresentam problemas de comportamento, e as propostas terapêuticas são também numerosas. Infelizmente, repousam, em geral, sobre concepções pedagógicas nas quais seria possível e necessário inculcar adaptação e submissão à criança “difícil”. Trata-se da terapia comportamental mais ou menos bem sucedida, que consiste numa espécie de “reparação” da criança. Todas as alternativas tentam calar ou ignorar o fato de que cada criança com problemas exprime a história das violações a sua integridade, que começa muito cedo na sua vida, como mostra o meu trabalho de investigação (ver meu artigo de 2006 “a impotência das estatísticas”), (ainda não publicado em francês), entre zero e quatro anos, enquanto o cérebro está em formação. A maior parte do tempo, esta sua história fica recalcada.
No entanto, não se pode realmente ajudar um ser mortificado a tratar suas feridas se se recusa a olha-las de frente. Felizmente, as perspectivas de cura são melhores para um organismo jovem, o que é também verdade para o psiquismo. O primeiro passo a fazer seria, então, preparar-se para olhar as suas feridas, para leva-las a sério e deixar de nega-las. Isso não tem nada a ver com “reparar os problemas” da criança, trata-se pelo contrário de tratar das suas feridas pela empatia e informações justas e verdadeiras.
Para que a criança alcance seu pleno desenvolvimento emocional (sua maturidade verdadeira), ela precisa mais do que apenas a aprendizagem do comportamento adaptado à norma. Para que não ganhe mais atraso, depressão, nem distúrbios de alimentação, de modo que não caia também na droga, tem necessidade de ter acesso à sua história. Penso que com crianças maltratadas, os esforços educativos e terapêuticos bem intencionados estão condenados ao fracasso se a humilhação vivida nunca for evocada, em outros termos se a criança permanecer sozinha com o seu vivido. Para levantar o véu que pesa sobre este isolamento (a solidão face ao seu segredo), os pais deveriam ter a coragem de confessar o seu erro à criança. Isso alteraria completamente a situação. Durante uma discussão tranquila, poderiam, por exemplo, dizer-lhe:
“Nós te batemos quando era ainda pequeno, porque nós também fomos educados assim e pensávamos que era necessário. Mas agora, sabemos que nunca deveríamos ter nos autorizado a isso e pedimos desculpas pela humilhação que te fizemos sofrer e as dores que isto te causou, nunca mais o faremos. Lembre-nos esta promessa caso a esqueçamos”.
Há 17 países nos quais esta prática já caiu sob o golpe da lei, onde é simplesmente proibida. Durante as últimas décadas, cada vez mais pessoas de fato compreenderam que uma criança espancada vive no medo, cresce no temor permanente da próxima violência. Isto altera muitas de suas funções normais. Entre outras coisas, ela não será capaz de se defender se for atacada ou então o medo provocará uma reação violenta em retorno, fora de proporção. Uma criança que vive no medo pode dificilmente se concentrar nos seus deveres, tanto em casa como na escola. A sua atenção fica menos focada no que deveria saber e mais no comportamento dos professores ou pais, porque não sabe nunca quando a mão deles vai reagir. O comportamento dos adultos parece-lhe totalmente imprevisível, deve então estar constantemente em alerta. Perde a confiança nos pais que deveriam, como é o caso em todos os mamíferos, protege-la das agressões externas, e em nenhum caso ataca-la. Mas sem a confiança nos pais, a criança se sente muito desprotegida e isolada porque toda a sociedade está ao lado dos pais e não ao lado das crianças.
Estas informações não são para a criança revelações, pois seu corpo sabe tudo aquilo. Mas a coragem dos pais e a decisão de não mais fugir aos fatos terá, sem dúvida, um efeito benéfico, liberador e duradouro. E é um modelo de grande importância que é apresentado, não somente em palavras, mas numa atitude de coragem de ir fundo no que pensa, e também de respeito à verdade e à dignidade da criança, e não mais violência e falta de controle de si. Como a criança aprende com a atitude dos pais e não com as suas palavras, há apenas efeitos positivos a esperar de tal confissão. O segredo o qual a criança era a única portadora doravante foi nomeado e integrado na relação, que pode agora estabelecer-se com base no respeito mútuo e não no exercício autoritário do poder. As feridas caladas até então podem se curar porque não permanecem mais armazenadas no inconsciente. Quando crianças informadas tornam-se por sua vez pais, não correm mais o risco de reproduzir de maneira compulsiva o comportamento, às vezes, muito brutal ou perverso dos pais, não são empurrados para isso pelas suas feridas recalcadas. O arrependimento dos pais apaga as histórias trágicas e priva-as de seu potencial perigoso.
A criança espancada por seus pais aprende deles a reagir pela violência, isto é incontestável, e qualquer professor de maternal poderia confirmar se se autorizasse a ver o que lhe é dado a ver: A criança espancada em casa bate na mais fraca na escola assim como na família. E recebe uma punição quando bate no seu irmãozinho(a), e assim não compreende nada na marcha do mundo. Não foi o que aprendeu dos pais? É assim que nasce bem cedo uma desordem que se manifesta na forma de “perturbação”, e que leva a criança à terapia. Mas ninguém se arrisca a atacar as raízes deste mal, que, no entanto, é tão evidente.
A terapia pelo jogo com terapeutas dotados de forte sensibilidade pode certamente ajudar a criança a exprimir-se e ganhar confiança em si mesma num enquadre protegido e sempre o mesmo. Mas como o terapeuta faz silêncio sobre as primeiras feridas abertas no passado, a criança permanece, em geral, sozinha com o que viveu. Mesmo o mais dotado dos terapeutas não pode levantar este véu se a preocupação de proteger os pais o faz hesitar a levar plenamente em conta as feridas dos primeiros anos. Mas não cabe a ele falar com a criança, pois suscitaria imediatamente o medo de ser punida pelos pais. O terapeuta deve trabalhar com os pais sozinhos e deve lhes explicar em que o fato de falar poderia ser liberador para eles e para a criança.
Certamente, nem todos os pais vão aceitar esta proposta, ainda que lhes seja feita por terapeutas, o que seria evidentemente desejável. Alguns rirão sem dúvida desta ideia e dirão que o terapeuta é ingênuo e não sabe a que ponto as crianças são dissimuladas e procuram certamente explorar a bondade dos pais. Não é de surpreender tais reações, porque a maior parte dos pais vê nos filhos os seus próprios pais e têm medo de confessar um erro, pois antes pesadas punições o ameaçavam após os erros. Agarram-se à máscara da sua perfeição e é bem provável que sejam incapazes de se corrigir.
Quero contudo crer que todos os pais não são incorrigíveis torturadores. Penso que apesar deste medo, há muitos pais que gostariam de renunciar à esta relação de poder, que tinham há muito tempo vontade de ajudar seus filhos mas que até então não sabiam como fazer, porque sentiam medo da ideia de se abrir sinceramente à eles. É muito provável alguns pais chegarão mais facilmente a uma discussão honesta sobre “o segredo” e que é pela reação de seu filho que farão a experiência dos efeitos positivos da revelação da verdade. Constatarão, então, por si mesmos como os valores que pregam autoritariamente são inúteis se comparados à confissão sincera dos seus erros, condição indispensável para que o adulto se veja conferir a verdadeira autoridade, por ser credível. É evidente que qualquer criança tem necessidade de tal autoridade para encontrar o seu caminho no mundo. Uma criança a quem foi dita a verdade, que não foi educada para se acomodar com mentiras e atrocidades, pode desenvolver todas as potencialidades, como uma planta em boa terra cujas raízes não são presas de animais peçonhentos (as mentiras).
Tentei testar esta ideia com amigos, perguntei aos pais, mas também às crianças, o que pensavam. Constatei então que era mal compreendida, que os meus interlocutores interpretavam o meu propósito como se se tratasse de desculpar os pais. As crianças respondiam que era necessário ser capaz de perdoar os pais, etc.… Mas a minha ideia está longe disso. Se os pais se desculpam, as crianças podem ter o sentimento que se espera delas o perdão para descarregar os pais e libera-los de seus sentimentos de culpa. Seria pedir demais à criança.
Em contrapartida, o que tenho em mente, é uma informação que confirma o que a criança sabe na sua carne e confira um lugar central ao que viveu. É a criança que está em foco, com os seus sentimentos e as suas necessidades. Quando a criança observa que os pais se interessam pelo que ela sentiu nos momentos de exagero, ela vive um grande alívio ligado a uma sensação confusa de justiça… Não se trata aqui de perdão, mas da evacuação de segredos que separam. Trata-se de construir uma relação nova, fundada na confiança mútua, e de levantar o véu que isolava a criança espancada, até então.
Uma vez que do lado dos pais o reconhecimento da ferida tem lugar, muitas vias obstruídas liberam-se, num processo de cura espontâneo. É dos terapeutas que se espera tal resultado, mas sem o concurso dos pais não pode acontecer.
Quando os pais se dirigem à criança com carinho e respeito, e reconhecem sinceramente a sua falta, sem dizer: “foi você que me levou a fazer aquilo pelo teu comportamento“, muitas coisas se alteram. A criança recebe modelos que lhe permitem encontrar o seu caminho, não tenta mais evitar as realidades, o objetivo não é mais o de “reparar” de modo que agrade mais aos pais, mostra-se que se pode colocar a verdade em palavras e sentir a sua potência curativa. E, sobretudo: que ela não precisa mais se sentir culpada pelos erros dos pais já que eles reconhecem a sua culpa. Nos adultos, tais sentimentos de culpa estão geralmente na base de muitas depressões.

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Embora, este texto trate das violências físicas como espancamentos, são muitos os casos em que a verdade dos abusos não é revelada, como se o pai tivesse todos os direitos sobre os filhos. Sem a nomeação do agressor a criança só pode ficar perdida. Pedir desculpas pelos exageros faz bem! Mirian